Hoje eu só quero poder dizer que estou feliz por estar viva. Quero agradecer por ter amigos e amigas, mesmo aqueles que não pensam como eu.Lembrar que a bem pouco tempo atrás não era bem assim.
Você que nasceu depois de 1989, saiba que você não faz ideia do que era viver se você discordasse do sistema.
Hoje você se sente livre e tem a liberdade de expressar todo seu ódio. Para que você possa ter tudo isso hoje, lá atrás muita gente morreu, foi exilada ou simplesmente desapareceu.
É muito fácil hoje odiar, xingar um partido, uma pessoa, uma representação.
Saiba você que hoje, você está com todas as armas nas mãos e você pode escolher entre continuar livre pra dizer o que quiser, ou escolher a mordaça. Claro que é mais fácil escolher o desconhecido porque você, hoje, se sente seguro pra dizer o que quiser. Mas amanhã pode não ser assim.
Hoje você pode fazer a escolha a partir do ódio irracional. Amanhã poderá ser muito tarde para querer dialogar - não haverá diálogo. Ou você estará com o sistema ou será eliminado por ele.
Mas, se você quiser pensar no que vem pela frente, olhe para o passado. O Brasil é um adolescente ainda na sua democracia - ainda vai errar muito, mas não vai ser com a repressão que vamos consertar - muito ao contrário, a repressão irá alimentar o ódio, irá eliminar potenciais adversários.
Sei que ainda há aqueles que dizem que não temem o futuro. Que acham que "se não fizer nada de errado" não terão que temer.
Eu temo muito quando uma pessoa diz que um policial vai poder matar e não será punido, até porque não há maturidade psicológica e um policial pode matar um inocente e ainda assim será liberado.
Eu temo muito pelo que já estou vendo acontecer. Pessoas eliminando a tiros, a facadas adversários políticos. Isso é o princípio da barbárie.
Eu temo por todas as mulheres que são ameaçadas todos os dias por ex-companheiros porque não são maduros o bastante para aceitar o fim de um relacionamento.
Eu temo por todos as minorias que já são marginalizadas e fragilizadas porque serão os primeiros a sofrer com as consequências de uma onda de ódio indiscriminada.
Eu não quero que ninguém morra por divergência política. Não quero que meu vizinho, meu colega de trabalho ou meu inimigo seja eliminado. Eu preciso do diferente para me perceber no mundo. Eu não existo sem essa oposição. Eu só sou porque o outro também é.
A partir do momento em que eu me fecho numa bolha onde todos são iguais, eu não tenho como aprender a discordar, opinar, discutir propostas. Eu apenas aceito tudo e engulo tudo.
Eu preciso do outro para crescer. É no diálogo e na conversa respeitosa que me disponho a ouvir o outro, conhecer o outro e até mesmo ser convencida ou convencer o outro com argumentos sólidos e honestos.
Eu quero poder viver e preciso que o meu colega que pensa diferente também esteja vivo. O contrário disso é a barbárie, é a criancice. É pegar a bola e levar embora porque não sei conversar, não sei perder nem ganhar.
Estamos diante de um momento crucial e as pessoas ficam relativizando violência, tortura, feminicídio, racismo, homofobia. Não sei ao certo até que ponto as pessoas não se dão conta disso ou se na bolha delas essas notícias não chegam.
Só sei que eu não quero que você morra só porque pensa diferente de mim. Mas há um candidato que incita seus seguidores a eliminar quem pensa diferente, e já estão fazendo isso desde que o resultado do primeiro turno saiu. Estão sentindo-se autorizados a fazê-lo.
Sei que você pensa diferente de mim, mas sei também que você talvez não queira me eliminar, mas eles não querem nem saber. Você se torna responsável, ainda que indiretamente, por todas as mortes causadas pelos seguidores violentos que seguem o candidato torturador.
Blog autoral: Poemas, contos, crônicas, relatos. Ensaios e experimentos literários, reflexões bioéticas e teológico-pastorais.
domingo, 28 de outubro de 2018
quinta-feira, 18 de maio de 2017
A transformação
Paira no ar uma sensação angustiante de que estou pagando por todos os erros sozinha. Observo à minha volta e percebo que todos os culpados já foram penalizados e já pagaram pelos seus pecados, mas, parece que os meus nunca estão pagos. Daí a gente fica sabendo de pessoas que cumpriram suas penas e retomaram suas vidas.
Quem é o juiz que me condena ad infinitum? Hoje entendi que sou eu mesma. Tal qual Hester Prynne adotei a Letra Escarlate e me penitenciei com tanto rigor como a própria personagem do livro.
Li esse livro há uns treze anos e sempre fiquei impressionada com a força e a garra daquela mulher. E, de algum modo, ainda que sem perceber, impus para mim o mesmo castigo que ela recebeu. Fui rigorosa e altamente obcecada por minha penitência que sabotei todas as possibilidades de ser feliz novamente - parece que algo em mim estava sempre me dizendo que eu não tinha esse direito.
Fui eu mesma quem executei a pena. Impus um sofrimento árduo e prolongado, como se estivesse estipulando uma pena de morte. Não haveria trégua nem refresco. Estava condenada à solidão, ao fracasso, ao cansaço e a morte. Porém, como tudo na vida pode dar uma reviravolta, acho que chegou o tempo da redenção e da quitação da dívida eterna.
Segundo a mitologia grega a fênix, fenice é um pássaro que entra em auto-combustão e, depois de um tempo renasce das próprias cinzas. Hoje estou me sentindo uma fênix em processo de combustão. Talvez possa levar alguns dias para que eu comece o processo de renascimento. Sinto-me consumida por uma dor intensa, porém com uma sensação de que até o final haverá um alívio tão profundo como respirar ar puro, a plenos pulmões - um pulmão recém-nascido. As dores no corpo parecem fluir para um ponto estratégico que termina em uma extremidade qualquer e depois escorre pelo ralo.
As dores de cabeça, estômago e rins parecem aliviar suave e lentamente. Há um aspecto diferente no ambiente. Estamos no período de outono e, lembro-me, então que no outono as folhas caem, animais trocam os pelos e as aves trocam as penas. No outono morre o velho para permitir que na primavera brote o novo. Dentro de mim, essa sensação me remete a essa mesma imagem. Eu sinto profundamente que estou morrendo para o velho para deixar nascer o novo em mim.
Numa outra história de ficção muito conhecida - Harry Potter, há um mago muito poderoso conhecido por Dumbledore. Segundo esse mago as lágrimas de fênix tem poder curativo. Então, talvez eu passe por um período me banhando nas lágrimas da fênix até que o processo de renascimento inicie, não faço ideia de quanto tempo pode demorar. A parte boa é saber que, uma vez restaurados todos os sistemas - principalmente o emocional, estarei pronta para uma vida nova, como se estivesse me permitindo nascer de novo, dar um reset e reconfigurar as os sistemas.
Há ainda outra história sobre a águia, que parece vir ao meu encontro nesse momento. Diz-se que as águias podem viver até 70 anos. Porém, para que ela consiga atingir essa idade, há um momento, na metade de sua vida, em que a águia precisa tomar uma difícil decisão. Ela deve decidir se vai morrer ou vai para um exílio longo. Nessa idade a águia está com as garras fracas, o bico torto e, se ela não quiser morrer ela sobe um morro bem alto e lá inicia-se um longo processo de transformação. Primeiro a águia bate o bico na pedra até que esse caia, isso faz com que outro bico novo possa crescer no lugar. Depois que o novo bico está pronto a águia arranca suas garras uma à uma. Novamente ela espera pacientemente até que nasçam as novas garras e, por fim, ela começa a arrancar todas as penas do corpo. Passado todo esse tempo a águia está totalmente transformada e pronta para viver a segunda metade de sua vida, linda, forte, majestosa e imponente.
Hoje estou a caminho da meia idade, meio século. Sinto-me como essa águia que precisa subir o topo do morro. Estou pronta para arrancar o bico, as garras e as penas. Não sei quanto tempo pode demorar, mas sei que estou pronta pra começar o retiro.
Hoje estou a caminho da meia idade, meio século. Sinto-me como essa águia que precisa subir o topo do morro. Estou pronta para arrancar o bico, as garras e as penas. Não sei quanto tempo pode demorar, mas sei que estou pronta pra começar o retiro.
Estou me livrando de todos os resquícios que me prendem ao passado e fechando todas as portas que ficaram esquecidas e entreabertas. Estou buscando uma nova porta, uma nova saída. Um novo começo de vida, uma nova vida. Começar do zero mesmo, sem grandes expectativas. Estou pronta.
quarta-feira, 17 de maio de 2017
Por que demorei tanto?
Hoje me dei conta que esperei tempo demais e perdi o bonde, poderia ter decidido a mais tempo. O que me atrasou tanto? Uma promessa feita, tinha que honrá-la, mas poderia ter tentado antes, arriscado antes. Dava tempo de ser feliz. Dava tempo de refazer uma história que foi cortada pela raiz. Poderia ter dignificado aquele sentimento se tivesse buscado respostas mais cedo.
Demorei demais. Cheguei atrasada. Poderia ter tido uma segunda chance. E o que é triste é que o desejo de saber notícias sempre existiu. Mas o respeito, a ética, os valores sempre freavam, sabiamente, o impulso. O que nos humaniza e nos diferencia dos animais é a capacidade de racionalizar e de controlar os impulsos.
Hoje percebo que alguns impulsos podem ser intuições que tentam nos ajudar, porém, raciocinamos tanto e tanto que deixamos a graça passar. O espírito soprou e eu simplesmente ignorei. Não foi uma vez só, foram várias. Poderia ter corrigido o curso da minha própria história, mas, sem querer, deixei a oportunidade passar.
Escolhi estudar e buscar significado para a vida ajudando as pessoas, ensinando, atuando na pastoral, levando mensagem de amor fraterno e de esperança para comunidades carentes. Assumi o compromisso de lutar pelo empodeiramento das mulheres e das pessoas menos favorecidas. Escolhi a Pastoral da Saúde para falar de cidadania e de direito à saúde "para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10)".
Levei essa mensagem a tanta gente e esqueci de cuidar de minha vida. Negligenciei o amor a mim mesma, negligenciei o amor que guardei no cofre. Não sabia que um dia isso poderia me sufocar e me tirar a tranquilidade.
Sim, descobri que um dia a chave do cofre apodrece e a ferrugem começa a vazar para fora. A emoção que ficou trancada está fraca, sem ar, adoeceu. Saiu se arrastando e pedindo socorro, sussurrando, quase que inaudível. Não consegue mais gritar!
É, hoje entendi que poderia ter sido menos pragmática e covarde. Teria tido uma chance? Teria chegado a seu coração a tempo de reconquistar o seu amor? Teria dignificado o nosso amor? Nem sei ao certo se você um dia me amou de verdade. Pedi a Deus, muitas vezes para me orientar o meu caminho, o seu. Não poderia interferir quando acreditei que Deu ouviu as minhas preces, seria egoísmo da minha parte querer ser feliz com você.
Você era importante para mim. Eu esperava tanto encontrar você no meio do caminho quando nossas vidas pudessem estar livres um para o outro, mas nunca tentei cruzar aquela linha tênue que traçamos. Cumpri minha promessa por muito mais tempo do que teria sido preciso? Tive medo? Tiveste medo, tu? Ou nunca pensaste em me procurar?
Costumo perguntar-me se você alguma vez quis saber como eu estava porque eu sempre quis saber de você. Sempre! Mas havia feito uma promessa. Sempre acreditei que o verdadeiro amor é aquele que preza pela felicidade do outro, ainda que para isso tenhamos que deixá-lo partir. Foi o que eu sempre fiz, cumpri minha promessa por amor. Nunca deixei de amar você. Só que não poderia quebrar aquela promessa. Nunca mais amei alguém como amei você. Nunca mais encontrei alguém como você, apesar de ter tido alguns relacionamentos que não foram tão significativos.
Hoje me dei conta que poderia ter tentado um pouco mais cedo. Eu poderia ter estado lá naquele momento em que você precisou de mim mas eu não estava. Será que naquele momento difícil você também não pensou em mim? Não quis procurar-me? Mais uma vez o trem passou e eu me atrasei.
Você foi a brisa suave numa vida de tempestade. Você foi a calmaria num mar turbulento. Você foi um suspiro de vida quando o ar estava pesado. Você foi minha paz num mundo rodeado de guerra.
terça-feira, 16 de maio de 2017
Ferida Purulenta
Sabe aquela ferida que insiste em não curar? Passaram-se longos anos e a cicatriz ainda sangra, ainda incha, ainda doe? Aquela ferida que está lá dentro, que não dá pra ver, mas que você sente, dia após dia, doer cada vez mais. Aquela mágoa que você ficou remoendo, aquela angústia, aquela dúvida que permaneceu ali te fazendo pensar e pensar, insistentemente. Você não quer pensar mas aquele pensamento te persegue, te sufoca, te condena ao eterno sofrimento?
Essa ferida purulenta está a ponto de vazar um pus fétido, de consistência densa e amarelada. A ferida está pronta pra ser apenas uma cicatriz, não vai mais doer, mas estará sempre ali para representar o que significou. Uma ferida negligenciada, escondida, neutralizada pelo tempo e pela podridão de uma moralidade doentia. Guardar a dor para não ter que por pra fora uma vida, uma história, um amor mal sucedido, um relacionamento partido. Não importa qual seja a motivação, o fato é que algumas pessoas costumam ignorar a dor e a mágoa e fingem que tudo está bem. O orgulho é maior do que a vontade de chorar, de gritar, de explodir - É sempre aquele autocontrole para manter tudo de acordo com o que se espera de uma pessoa equilibrada. Sim, mantemos o equilíbrio, agimos de acordo com as normas sociais.
Então, é melhor fazer tudo de modo que não sinta vergonha, que não dê vexame, não deixe os outros te olharem como se fosse um coitado. Não, não pode ter raiva, não pode se enfurecer, não pode demonstrar qualquer comportamento agressivo ou irracional. Foi ensinado que era errado por pra fora qualquer sentimento de dor ou agressividade.
E a ferida vai se alastrando por dentro, porque, enquanto do lado externo tudo parece autocontrole, lá dentro estoura uma úlcera, explode uma dor muscular, um coração. Infelizmente, algumas dores emocionais se transformam, com o tempo, em dor física, e nem sempre são detectadas e, quando somatiza, dificilmente encontra-se a origem do estrago - muitas vezes desencadeado anos e anos lá atrás. Destrói as defesas, destrói as possibilidades de novos relacionamentos, sim, porque os traumas nos paralisam, nos bloqueiam e nos congelam.
De repente não temos mais coragem de amar de novo porque um dia alguém nos decepcionou tanto e a tal ponto que o medo de sofrer se torna infinitamente maior que o medo de ser feliz novamente. O amor deixa de ser uma chance de recomeçar e se torna um pavor constante. A autossabotagem inconsciente destrói qualquer tentativa de sucesso.
A dor emocional abre um buraco profundo e, quando o corpo começa a sentir os efeitos de tanto autocontrole, as doenças já se alojaram. Algumas ainda conseguem ser tratadas, porém, se não curar a fonte, tudo pode voltar ou até mesmo piorar muito. Não há escapatória. Enquanto não tratar e curar a dor emocional não haverá descanso e, possivelmente, em alguns casos vira depressão, quando não leva ao suicídio.
Fato é que há pessoas que resistem bravamente, superando todas as dores, ao menos aparentemente, mas, se a superação não for efetiva e verdadeira, a dor emocional pode nos derrubar e nos levar para um poço fundo, escuro e solitário.
Também é bem verdade que há muita gente que convive diariamente com alguém que está sofrendo calado e não consegue perceber nos olhar o que se passa - falta um mínimo de sensibilidade. Não temos tempo para olhar o outro. Estamos sempre muito ocupados, cuidando das nossas próprias vidas que nos tornamos egoístas. Não percebemos os sinais, porque sempre existem sinais. As pessoas sempre dão pistas de que não estão bem - mas estamos presos na Matrix e não enxergamos (ou não queremos enxergar). É mais fácil fingir que está tudo bem, fingir que não vimos. Demonstrar empatia é para raros. Compaixão, então, quase inexiste.
E assim a vida passa, as pessoas vão e vêm, as vidas cruzam outros caminhos, as rotas são alteradas e, simplesmente aprendemos a viver com aquilo que restou. Guardamos todas as dores, mágoas e ressentimentos num baú, como se deletássemos tudo - mas não é assim, esse baú enche de feridas e, quando vaza o pus, pode ser tarde demais. Mas sempre deve haver esperança de que tudo pode ser diferente. Precisamos aprender a expurgar todo sofrimento.
Essa ferida está pronta pra curar definitivamente. Maturou, teve o seu tempo de hibernação, agora precisa vazar. Deixe o seu organismo eliminar toda secreção que precisa ser limpa porque só depois de uma boa assepsia o corpo se recupera e estamos prontos para viver novas aventuras. As feridas nos fortalecem e nos preparam para a vida, fazem parte da vida, na verdade.
Viver é sempre uma aventura magnífica e vale a pena toda experiência vivida, ainda que algumas tenham sido dolorosas...
domingo, 30 de abril de 2017
A semente da discórdia
Se há um tema do qual a literatura é especialista é a dúvida. Otelo mata Desdêmona depois que Iago arquiteta um plano para destruir o casamento. Iago invejava Otelo e por isso arma uma situação, conhecendo a alma humana e sabendo que o mouro era ciumento, insinuou que Desdômona estava tendo um caso com o soldado que era o melhor amigo de Otelo.
Machado de Assis inicia a obra Dom Casmurro quando Bentinho acaba de assistir a peça Otelo. A partir dali toda a história de Bentinho é afetada pela trama shekespeareana. A semente da discórdia já estava plantada. Toda dúvida sobre Capitu começa a envenenar nosso personagem.
É assim na ficção, é assim na vida. basta uma pontinha de dúvida para destruir um relacionamento feliz. Uma pequena mentira contada para evitar discussões pode se transformar no motivo para a separação. Uma ida ao cinema sem contar ou uma saída com amigos sem aviso pode ser a ponta do iceberg para o fim.
Não só nos relacionamentos amorosos encontramos a semente da discórdia. Pode ser no trabalho, motivada por inveja, por insegurança, por medo de perder um cargo. Pode ser entre amigos - ou falsos amigos, nesse caso.
A dúvida é sempre um vermezinho que vais comendo as entranhas. Incomoda, não deixa dormir, consome toda nossa energia. Certamente isso afeta nossa saúde e nosso dia-a-dia. Perdemos a concentração no que é necessário. Ficamos distraídos pensando naquilo ao invés de manter o foco no trabalho e nas tarefas. Por isso, quando a dúvida nos persegue fica difícil manter a máxima de que os problemas ficam da porta pra fora. Enquanto esse problema nos perseguir nosso trabalho estará em perigo. Precisamos esclarecer as dúvidas para seguir em frente, mas nem sempre é possível.
Sabe aquela dúvida sobre estar sendo traído pelo companheiro? Então - por mais profissional que a pessoa possa ser, há um momento em que entra em colapso. Ou a pessoa enterra a dúvida e se afunda no trabalho e depois na bebida. A rotina começa a mudar. Não volta mais para casa cedo, chega só pra dormir. E, ao invés de conversar prefere fugir. Tem medo de uma verdade que pode nem mesmo existir. Mas a mente começa a acreditar e prefere viver com o medo do que saber a verdade - esquece que a verdade pode ser outra totalmente diferente, mas a dúvida ainda é melhor do que a certeza - será?
Muitas vezes somos nós mesmos que plantamos a sementinha - um telefonema aqui, um gesto ali, um desentendimento ou um mal-entendido pode ser a fonte do sofrimento. Assim como com Bentinho - às vezes um simples capítulo de uma novela ou um filme na TV podem despertar a nossa fértil imaginação e criar uma história paralela e desconexa com a realidade. A fantasia cresce e a nossa vida se transforma numa grande agonia. Já não temos mais o controle da realidade e não sabemos mais diferenciar o real do fantástico.
A semente da discórdia destrói a vida de muita gente: separa casais, demite pessoas, muda rotas e destinos. É uma praga que se espalha com uma mentira, uma pequena insinuação nada inocente, apenas intencional e venenosa, criada apenas para destruir uma vida. Como um vermezinho pode fazer tamanho estrago!
Se arrependimento matasse
Você certamente já ouviu a expressão "Se arrependimento matasse eu já estava morto há muito tempo"!, Certo? O interessante é que - brincadeiras à parte - sim, arrependimento mata. O problema é que não mata de imediato - excetuando-se alguns casos muito graves em que podem levar ao suicídio.
Há um tipo de suicídio silencioso que é causado pelo arrependimento velado. Há uma infinidade de pessoas que preferem não admitir algum tipo de arrependimento e aos poucos vão se sabotando na vida. Essas pessoas podem não ter elaborado muito bem um arrependimento e, somando-se a isso aquele orgulho de não admitir que se arrependeu. Infelizmente muitas famílias criam os filhos com tamanho rigor que faz com que as pessoas criem uma capa de proteção chamada de orgulho.
Não quero ser superficial nem rasa, apenas aprendi com a vida, a perceber as pessoas e sempre procurei ser uma ouvinte atenciosa. Algumas pessoas guardam mágoa e dor de outras pessoas, mas a maior mágoa que existe é a mágoa para com elas mesmas. Essas pessoas costumam se punir inconscientemente de várias maneiras. Umas acabam se tornando usuárias de drogas, alcoolistas. Outras, imperceptivelmente sabotam seus relacionamentos. Parece que quando tudo está indo muito bem acabam dando um jeito de destruir a relação - é como se não se sentissem merecedoras da felicidade. Tão logo tudo parece estar ficando muito bom surge um impulso que leva a pessoa a implodir tudo. O sensor, o superego dá um jeito de acabar com o ego.
Se você já sentiu-se assim ou conhece pessoas assim certamente pode ter notado o quanto essa pessoa precisa de ajuda. E não só de ajuda de amigos - precisa de ajuda especializada, psicológica e quem sabe até mesmo psiquiátrica. Muitas vezes o tratamento pode salvar a vida dessa pessoa. Há casos de depressão que causam obesidade e não adianta só fazer dieta e tratamento para emagrecer. Precisa curar aquilo que afeta profundamente - e pode ser uma depressão causada por um arrependimento silencioso e que, muitas vezes nem mesmo a pessoa havia se dado conta de que existia.
Por isso, uma das primeiras atitudes a ser tomada é admitir pra si mesmo que se arrepende. Não precisa publicizar, não precisa por no jornal, não precisa contar pra ninguém - só admitir já alivia aquela tensão acumulada. E, se sentir que é preciso contar pra alguém, procure alguém que não faça julgamentos, que não condene. Melhor mesmo é escrever e guardar ou, se preferir, jogar fora. Se for católico, pode se confessar - essa é uma das formas mais curativas que existe. Se não quiser falar com um padre conhecido, procure um estranho - falar é restaurador e tira o peso das costas.
O fato é que, o arrependimento pode sim matar, pode adoecer, pode entristecer. Uma pessoa pode se transformar, definhar. É parte do cuidado humano saber enxergar as pessoas para além do que é aparente. É muito fácil julgar alguém que é (está) amargurada, difícil é se interessar e procurar compreender a raiz da amargura. A escuta pode mudar o julgamento e pode ajudar no processo de cura. Porém, se não for capaz de escutar sem julgar é melhor nem ouvir.
Quando alguém está arrependido de alguma coisa, possivelmente vai dar pistas, sinais. Vai tentar pedir socorro de formas diferentes. Claro que não são sinais explícitos, até porque são, na maioria dos casos são inconscientes. A pessoa deixa pistas. Conta histórias, fala de outras pessoas, tenta abordar o assunto ou fugir dele, conforme vai sentindo que afeta seus sentimentos. Guarde bem isso - arrependimento pode matar silenciosamente, sim.
A ferrugem "daquilo que poderia ter sido e não foi"
Deixe para traz todas aquelas ideias que te perseguem fazendo você pensar "naquilo que teria sido se..." Acredite, o que teria sido não existe, e, ainda que pudesse existir, haveria uma miríade de possibilidades infinitas tanto quanto as análises combinatórias e outras expressões matemáticas poderiam equacionar.
A vida é o aqui e o agora. Não vale a pena ficar vivendo com a perspectiva em flashbacks tentando imaginar o que não aconteceu. Pense nas escolhas que você tem daqui para frente. Pense antes sabendo que aquilo que vai ficar para traz não volta. Não decida nada querendo uma chance de fazer o retorno na próxima estrada, porque quando você fez a sua escolha a estrada também mudou.
Esse pensamento que te persegue é como uma ferrugem que te corroe lentamente, só que por dentro. Ela dilacera aos poucos seus órgãos e você não percebe muito cedo. Na verdade, esse pensamento te paralisa e te impede de andar de cabeça erguida e de seguir em frente com orgulho e confiança.
Uma vez tomada a decisão, quando medida e bem pensada, você pode apenas supor algumas possíveis situações e, se quiser, pode escolher o que será menos doloroso, o que será mais lucrativo, o que será mais vantajoso, o que será mais seguro. Porém, são apenas previsões muito simplistas, você de fato nunca saberá o que teria sido.
Se você escolheu casar com o primeiro namorado, se você decidiu se separar, se você optou por estudar Letras e não Farmácia, whatever - não importa, não adianta ficar se lamuriando pelo que deixou de fazer. Existe um mar de possibilidades tantas quantas de estrelas no céu ou gotas no oceano. Não vale a pena se martirizar tanto. Essa cobrança está na sua cabeça querendo te culpar de coisas que nem sempre foram sua culpa. Você não precisa sofrer tanto assim. Viva com o que você tem agora.
O mundo dá voltas, é bem verdade, mas não tente reconstruir o que não foi no agora porque você estará cometendo um desastre quando não um suicídio. Pense que pessoas nasceram e morreram depois disso tudo. Pessoas se conheceram e se casaram e tiveram filhos. Não é nada produtivo nem assertivo voltar no tempo como se essas novas realidades inexistissem.
Não procure aquele ex-namorado ou namorada de vinte anos, acredite, a vida deles andou e eles fizeram outras escolhas, trilharam novos caminhos. Interferir no agora pode ser o caos na sua vida e na vida deles também. Deixe tudo como está. A vida se encarrega de corrigir o curso do rio. Não tente fazer por você mesmo.
Se você tem filhos, tente ensiná-los a não se arrepender de suas escolhas. Ajude-os a pensar bem antes de decidir. E, não condene ninguém por ter escolhido fugir com o primeiro namorado porque estava apaixonada, por ter feito um aborto, por ter abandonado os estudos para casar. Mais do que tudo, as pessoas precisam se sentir acolhidas em suas decisões, mesmo que elas possam se arrepender delas, ficar culpando não ajuda, só piora.
Há pessoas que adoecem por dentro por culpa. Segredos escondidos e guardados a sete chaves. A vergonha, o medo do julgamento, a falta de perdão (muitas vezes de auto perdão), pode matar as pessoas. Essa morte não é uma morte súbita, é uma morte lenta, uma morte amarga, uma morte dolorosa. A culpa é um veneno poderoso e sutil que entra na corrente sanguínea imperceptivelmente e vai destruindo todos as células de defesa. Há pessoas que têm câncer causado por mágoas e ressentimentos. Pessoas que externamente são calmas, prestativas, educadas e gentis. Por dentro são uma panela de pressão prontas para explodir, mas têm um autocontrole porque aprenderam que precisam ser sempre bondosas e generosas. Pessoas religiosas são as que mais sofrem porque aprendem que devem conter os sentimentos de raiva de angústia.
Aprenda desde cedo que o corpo cobra por isso. Você guarda dentro de si e depois isso tudo se transforma em doenças. Ame e perdoe sempre, perdoe de verdade. Perdoar é de fato não mais cobrar por aquilo, não é esquecer. O perdão vem do coração, o lembrar da memória, são duas coisas diferentes. Você vai sempre se lembrar do que aconteceu, mas a partir do momento em que você perdoou você não pode mais se sentir afetado. Sim, porque o que fere é o afeto. O afeto doe, machuca. O perdão cura a ferida, mas a cicatriz permanece. E, quando você olha para a cicatriz você lembra do que aconteceu, mas não doe mais.
Ame-se, perdoe-se, siga seu curso. Permita-se viver e ser feliz, escolha isso hoje, escolha isso agora, escolha isso já!
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