sábado, 4 de março de 2017

DIGNIDADE DA VIDA: DEFESA OU PROMOÇÃO

DIGNIDADE DA VIDA: DEFESA OU PROMOÇÃO[1]

Jaqueline Balthazar Silva[2]


            Devido à crescente polarização da sociedade tem-se observado que o uso de expressões como “defesa a vida” geram uma grande polêmica e o diálogo torna-se bastante dificultado quando as posições contrárias tentam debater. A apologética, tanto de uma posição quanto de outra é sempre agressiva e produz pouco resultado além de um grande desgaste. Há um clima de rivalidade como se estivéssemos em uma guerra. Vê-se no uso de termos como “defesa”, pois, se precisamos nos defender estamos pressupondo que estamos sendo atacados. A linguagem bélica é muito comum quando o foco é a Defesa da vida e por isso mesmo cria um clima de estratégia para lutar contra o inimigo.
            Aos poucos tem-se observado que a expressão “promoção da vida” tem sido melhor acolhida por parte de ambas as partes, de modo que a escolha dessa expressão também ajuda a mudar o foco bélico para um foco colaborativo. Todos entendem que é preciso promover a vida, ainda que, os modos de promoção de cada grupo seja diferente, mesmo assim, a expressão torna o diálogo mais viável.
            De acordo com o professor Mário Antônio Sanches o que torna o debate difícil são as posições radicais, de um lado temos, por exemplo o teólogo que observa tudo “do céu” – tem uma visão bastante ampla de uma situação, ao passo que o biólogo, por exemplo, tem a visão bastante aproximada da situação.
            Temos aí dois problemas: tanto a visão ampliada e genérica pode ajudar como pode tornar a análise muito teórica e por isso mesma, às vezes parece “fria”. E, a visão muito aproximada, apesar de estar empiricamente em contato com a situação real e específica, corre o risco de tentar fazer generalizações a partir daquela experiência pessoal. A visão macro (teólogo) tende a minimizar a dor alheia a partir dos pressupostos normativos e teóricos enquanto que a visão micro (biólogo) tende a querer normatizar a partir de experiências pessoais. Um exemplo claro dessa situação é quando alguém perde um ente querido em um assassinato ou assalto e passa a defender a pena de morte a partir de sua dor particular – isso é inaceitável – Diz o professor Mário Sanches, do mesmo modo que, ficar nas redes sociais comemorando o extermínio de detentos nas prisões também é um pensamento totalmente contraditório ao fundamento cristão da dignidade humana.
            Voltando à comparação entre a visão macro e a visão micro, ambas as análises são necessárias e, por isso, promover a vida é primeiramente definir qual o valor da vida humana, da dignidade humana. Estabelecemos os parâmetros pelos quais devemos defender a vida a partir de um fundamento básico.

Qual o valor da vida humana? Como se mede? Qual o fundamento para esse valor?

            Não há na vida humana algo que se possa pesar, medir, checar e quantificar – isso é dignidade, não tem como calcular o valor/preço assim como fazemos com as mercadorias. Dignidade se tem e pronto.
            Podemos nos perguntar sobre o que nos torna humano e, dependendo da visão de mundo podemos encontrar respostas que partem da visão religiosa (das várias religiões existentes), uma visão secular que dispensa o argumento religioso.
            Um argumento teológico que defende a dignidade humana é a ideia de que somos imagem e semelhança de Deus; o argumento secular parte do princípio da igualdade, somos todos iguais pela espécie humana – a nossa humanidade nos faz iguais e por isso mesmo temos igual dignidade. Daí partimos para a máxima proteção enquanto semelhantes.
            Cada pessoa tem sua própria definição de dignidade humana, ou seja, o conceito de dignidade vem do olhar que cada pessoa tem e que vem de casa. As religiões dizem que todo ser humano tem uma dignidade intrínseca. O olhar religioso reconhece esse elemento intrínseco. Embora religiões diferentes tenham motivações diferentes para defender a dignidade humana, todas reconhecem que o que nos unifica é o atributo humano (Mario Antônio Sanches).
            As religiões são maculadas por movimentos históricos que manipularam a religião e se apropriaram dela para benefício próprio. Se existem muitos ateus hoje, isso se deve ao mau uso do ensinamento das religiões porque a religião é praticada por pessoas e o que as pessoas observam são os comportamentos dessas pessoas. Por isso, ao observar um comportamento inadequado por parte de pessoas que se dizem religiosas, é muito fácil compreender porque algumas pessoas preferem aderir ao ateísmo – são mais coerentes com seus valores morais e por isso mesmo, muitas vezes mais justas. O que é uma pena porque acabam julgando as religiões a partir de práticas distorcidas de alguns. Aqueles que ousam ir em busca de respostas para tais comportamentos e adentram ao estudo das religiões percebem que a distorção maculou as religiões. Porém, poucos são aqueles que estão dispostos a dar esse passo a mais para perceber a nobreza das religiões. As religiões são as grandes escolas de humanidade (Mario Antônio Sanches).
            De acordo com as teorias essencialistas existe no ser humano uma essência universal que nos iguala e que nos faz perceber no outro alguém igual a mim, ainda que sejamos diferentes (cultura, religião, afinidade, raça, etc.). A sua humanidade me faz perceber que, apesar de termos tantas diferenças ainda existe algo de essencial em nós que nos faz reconhecer sua dignidade. Por isso mesmo, a vida humana é um valor, independente de quem seja: um padre, um religioso, um ateu, um homossexual, um assassino, um político corrupto – todos são seres humanos em primeiro lugar e, por isso mesmo, o dever de defender a vida humana vem em primeiro lugar – independentemente de quem for.
            Só para exemplificar: no Judaísmo o ser humano é considerado uma criatura dentre as outras criaturas, ou seja, toda vida é um valor, independente de espécie. Considerando que o Cristianismo deriva do judaísmo, é de se considerar que o pressuposto é o mesmo.
            O professor Mário explica que uma das primeiras deturpações da religião foi querer separar os seres humanos entre os escolhidos e os não escolhidos – Deus ama a todos a priori. Dizer que os batizados são filhos de Deus e os não batizados não são já é uma grande deturpação. O batismo é um compromisso e como tal deveria ser assumido radicalmente, por isso, como dizia o apóstolo Paulo, mais que um privilégio é um dever. E infelizmente temos tantos batizados pregando ideias contrárias aos ensinamentos de Cristo – é muito triste observar pessoas se autoproclamando “pessoas de bem” e exigindo pena de morte, incriminando e discriminando pessoas, excluindo pessoas por suas condições de vida diferentes. De acordo com as religiões a vida e a dignidade são dons gratuitos. O que difere do argumento não religioso é que para esses, a dignidade humana é conquistada.
            A corrente existencialista iniciada com Sartre surgiu como um embate contra o essencialismo. Sartre dizia que as pessoas não são todas iguais, são diferentes, pertencem a culturas diferentes e por isso, ao contrário do essencialismo que tem como pressuposto uma ideia universal de ser humano – todos iguais, o existencialismo diz que a existência precede a essência e por isso mesmo, a essência seria um valor que se constrói.
            O argumento de Kant sobre pessoa é um argumento universal e ainda hoje é um argumento forte, especialmente para a ética, pois pressupõe que se uma ação cabe para uma pessoa, então deverá caber para todas. Daí surgem vários ensinamentos como “não faça aos outros o que você não quer que façam a você”, ou, na forma positiva “faça aos outros aquilo que gostaria que fizessem a você”. Hoje, reconhecendo a diversidade até mesmo esse argumento pode ser perigoso porque nem sempre o que eu quero pra mim outro iria querer ou vice-versa.
            Se de um lado o existencialismo destrói o raciocínio da universalidade, por outro o essencialismo desvaloriza a diversidade. Foi em nome desse essencialismo universalista que houve um totalitarismo que buscou destruir a diversidade e, ainda hoje encontramos resquícios desse desejo de universalização – de tornar todos iguais, de cristianizar o planeta, por exemplo.
            O existencialismo levado à radicalidade acaba destruindo a essência humana porque pressupõe que todas as pessoas são essencialmente diferentes e cada um constrói a sua própria essência – e, se todos são tão diferentes não há mais nada que os identifique como iguais – e isso levaria ao fim da redenção em Cristo. É importante entender que estamos falando aqui de radicalidade extrema, se e somente se isso acontecesse.
            Segundo o professor Mário Sanches o grande antropólogo Clifford Geertz foi quem melhor definiu cultura, segundo esse autor todos os humanos são capazes de cultura e isso ao mesmo tempo cria a unidade e explica a diferença. Essa definição acaba juntando essencialismo e existencialismo na medida em que percebe que o que nos unifica é a capacidade de construir uma cultura diferente, ou seja, o que nos iguala é a nossa capacidade para o diferente.

Provocações futuras

            A reflexão sobre a dignidade humana: defesa ou promoção acaba deixando espaço para futuras discussões como a questão dos Direitos Humanos. Esse tema é bastante complexo mas, ao mesmo tempo muito importante hoje e sempre. Especialmente em momentos como os que estamos vivendo hoje, como nos casos dos presídios em que tantos que se dizem cristãos estão se expondo nas redes sociais como favoráveis a essa barbaridade – tão contraditório com os ensinamentos cristãos. Volta a criar uma situação desagradável em que alguns movimentos e grupos sociais manipulam e deturpam a religião em causa própria. Esse debate pressupõe muito diálogo com diferentes setores da sociedade: CNBB, advogados, Pastoral Carcerária e etc.
            Fica a proposta para futuras reflexões, talvez seminários e outras modalidades de comunicação e discussão temática.




[1] Texto escrito a partir da reflexão da reunião do Núcleo de Bioética da Arquidiocese de Curitiba (NAB) realizado no dia 04/02/2017. O texto foi escrito a partir das anotações das falas. As reflexões aqui apresentadas foram provocações propostas pelo professor Mário Antônio Sanches e discutidas pelo grupo, desse modo, o texto, apesar de escrito por mim, traz as reflexões que o professor nos ajudou a elaborar.
[2] Mestre em Bioética pela PUCPR, membro do NAB desde 2010. Teóloga, Assessora da Pastoral da Saúde da Arquidiocese de Curitiba responsável pela formação dos agentes de pastoral.

quarta-feira, 1 de março de 2017

DESENCONTROS

Os desencontros acontecem o tempo toda na vida das pessoas. Em alguns casos salvam vidas, em outros causam desastres. Pessoas vão e vem e muitas vezes simplesmente desaparecem das nossas vidas assim, num piscar de olhos.
            Num dia estamos aqui, juntinhos, jogando vôlei, cantando, dançando. No instante seguinte desapareceram. Acordamos décadas depois e percebemos que aquela pessoa que foi tão importante nas nossas vidas foi embora sem dar notícias, endereço, sem mandar cartão postal.
            Assim é a vida. Aquela melhor amiga de infância que hoje nem sabemos se ainda está viva. Se estudou, fez faculdade, se casou, teve filhos. Como pode ser assim tão ligeiro. Tudo já era num piscar de olhos.
            Os desencontros também podem ajudar a refazer a vida depois de juntados todos os cacos. Alguns desencontros são forçados por circunstâncias as quais é preferível nem saber porque.
            Separações são sempre dolorosas. Sempre causam efeito colateral. Por mais que tenhamos a capacidade de superar as perdas, sempre fica uma dor lá no fundo que, com o tempo não incomoda mais.
            Os desencontros são quase sempre tristes. Corta por dentro, sangra. Aperta o coração. Demoramos muito para nos restaurar. Algumas vezes entramos em depressão. Por isso, precisamos muito nos apaixonar de novo.
            O apaixonamento é um processo de cura que ajuda a recuperar toda aquela energia perdida. E é importante dizer que faz parte do processo de apaixonamento qualquer coisa que nos dê um novo sentido para a vida.
            Pode ser a prática de um esporte, estudar música, escrever. Descobri que posso me apaixonar por coisas diferentes que me dão prazer. Entrar pro coral da igreja, fazer academia, entrar para uma ONG. Tudo que possa me fazer vibrar de novo é o bastante para me levar para o mundo de novo.

            Por isso, apesar de essa terceira parte ser sobre aqueles momentos em que nos sentimos completamente perdidos, o importante é perceber que vai chegar o momento do reencontro – e esse será parte do outro livro, of course.


ENCONTROS

A vida nos proporciona vários encontros. Alguns deles não muito bons, outros fantásticos e divinos. Aos poucos e com o passar do tempo vamos aprendendo que mesmo naqueles encontros em que algo não saiu como esperávamos, de algum modo saímos diferente.
            Todo encontro nos transforma. E arrisco em dizer que o encontro com aqueles que não nos agradam muito também são encontros que nos ajudam a crescer. Muitas vezes esses encontros são uma espécie de “Black Mirror” porque revelam um lado nosso que não queremos ver.
            Logo, todo encontro traz alguma contribuição de vida. Claro que também tem coisas ruins, mas guardamos como experiência. Servem de alerta para não sofremos mais.
            Faz parte de nossos encontros fazermos novos amigos, o encontro com o transcendente, o encontro com o amor da nossa vida (ou os amores).

            Esse eterno encontro entre o sonho e a realidade que nos ajuda a construir o nosso mundo. O mundo que não é só nosso. O mundo que compartilhamos com todos e todas.


SONHOS

O que resta a uma criança que desde muito cedo vê os pais brigando, brigando, brigando?
            Penso que restam sonhos. Muitos sonhos. Desde os mais inocentes e ingênuos como acreditar que um dia os pais vão ficar juntos outra vez e reconstruir a família até aqueles mais fantasiosos de um dia encontrar alguém que faça a vida se tornar um conto de fadas.
            A parte de mim que ousou continuar existindo nasceu dos sonhos da infância. Aprendi a ler aos sete anos. Gostava de ouvir histórias de superação e de final feliz como a da Cinderela. Identificava-me com ela. Eu era a gata borralheira. Estava certa de que um dia viria a ser resgatada por um príncipe encantado.
            Nunca fui tão ambiciosa a ponto de desejar ter grandes posses, muitas propriedades, empregados e carros. Queria apenas ser feliz. Muito feliz e amada.
            Queria estudar muito. Sempre gostei muito de estudar. E queria ser escritora. Achava encantador o modo como os escritores e escritoras prendiam nossa atenção. Gostava de contos, ficção, poesia, qualquer tipo de narrativa. O que me encantava era a narrativa em si.
            Aficionada pelas estruturas que subvertem o tempo e o espaço – o que na verdade sou até hoje. Amo o poder das palavras e o poder de viajar no tempo e no espaço. Os retrocessos e os retornos ao tempo real da narrativa.
            Devo ser meio doida mesmo. Mas isso tudo me dá alegria.
            Não há vida se não houver o sonho. Quando desistimos de sonhar, morremos. Por isso registro alguns sonhos que são tão meus, mas ao mesmo tempo tão de nossa gente que acho que seria muito injusto não os registrar.

            Esse é o modo como quero homenagear a todas e todos que passaram pela minha vida, seja nos sonhos, nos encontros ou nos desencontros. Porque é permitido sonhar sempre.


Sobre Sonhos, Encontros e Desencontros

Apresentação




Dos sonhos de infância um dos que mais me acompanharam ao longo de toda minha existência foi o de me tornar escritora. A leitura sempre foi a minha fiel companheira em todas as horas, tristes, alegres, de angústia de dor, de festa;
            O nosso pé de Ipê dourado sempre foi o meu companheiro também. Era embaixo do ipê que eu sentava para ler, para criar minhas fantasias, minhas estórias de heróis e até de príncipes e princesas. Sim, houve um tempo em que sonhava com o tal do príncipe encantado no cavalo branco. Naquele tempo era uma forma de imaginar que haveria um salvador que me resgataria da tristeza. Sentia muito fortemente o estigma de ser filha de pais separados. Mais ainda, de não ter sido criada pela mãe nem pela família da mãe.
            Então, o meu amigo e companheiro, senhor Ipê era o meu confidente. Era muito bom tê-lo como confidente, afinal ele não contaria nada pra ninguém e podia me ouvir silenciosamente, mesmo quando eu me comunicava com ele telepaticamente. Sim, eu tinha muita vergonha de falar em voz alta o que estava pensando – por isso, minha comunicação com as coisas, os objetos, os brinquedos era quase sempre telepáticas.
            Aqui registro de tudo um pouco – contos, poemas, crônicas. Escritos que foram guardados no porão da memória por um longo tempo – alguns deles bastante empoeirados – porém, permaneceram vivos esperando que um dia o toque do pincel mágico viesse tocá-los e transformá-los em história viva para o mundo tal qual a crisálida que desabrocha.

            O livro está dividido em três momentos que não são necessariamente cronológicos, pois a vida é feita de sonhos, encontros e desencontros o tempo todo, por isso, primeiro veremos os SONHOS, depois os ENCONTROS e por fim os DESENCONTROS que não são necessariamente o fim e sim o retorno ao começo porque tudo é cíclico.